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Usina de Belo Monte faz suas primeiras vítimas

Jueves 21 de julio de 2011 - El megaproyecto de la represa de Belo Monte avanza a pesar de sus detractores y de los organismos internacionales. En esta crónica desde el terreno Ruy Marques Sposati cuenta la dura realidad de sus primeras víctimas. / Sem ter para onde ir, famílias dos baixões vivem primeiros desesperos causados pela Usina.

Por Ruy Marques Sposati / Brasil de Fato

(Traducción al español)

Vão subindo para um dos pontos mais altos da cidade. Trazem no ombro foices, enxadas e facões. E crianças no colo. O sol corta o rio Xingu, ainda gelado.

Vinte de maio, era o princípio de uma ocupação urbana de famílias sem-teto em Altamira, no Pará. Eu estava lá; chegara algumas horas antes e podia ver se aproximarem, de cima, as pessoas, os cachorros, as conversações. Um pouco de barulho matinal.

Esta era a segunda ocupação na cidade nos últimos dias. As duas estão na conta da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Trinta mil famílias alagadas – e nem sinal de indenização. Dizem que em Tucuruí, no processo da construção, ocorreram 37 ocupações – o que significa que, aqui, estamos apenas no começo.

As mulheres iam roçando e dividindo os lotes: 20 por 10 metros. Os homens iam roçando e dividindo os lotes: 20 por 10 metros. As crianças não se divertiam. Fogueiras queimavam cobras e alguma juquira. No cadastro improvisado, 135 famílias. No terreno cabem mais ou menos 200 famílias, guardando o devido espaço para ruas, escola, posto de saúde e centro comunitário.

Segundo dia de ocupação. Vinham mais famílias às bicas; carregavam consigo garrafas térmicas com o café fraco e borrento e potinhos com bolos e cozidos, e mais crianças. Atrás delas, vinha a polícia. Com as armas. Atrás deles, os cachorros.

Um delegado muito sóbrio vinha com um título de propriedade em punho. Ali dizia: terreno da Eletronorte. Achava tratar-se do mandado de reintegração de posse. “Mas, seu guarda, onde tá o mandado e reintegração de posse?”. Com esta pergunta fui levado para a delegacia e indiciado por esbulho possessório e acusado de liderar a tropa. As famílias são despejadas sob cassetetes e spray de pimenta. A polícia leva todas as ferramentas.

Caças e rojões

Duas horas depois, cabisbaixo, saía da DP, quando topo com a frota de bicicleta: era a rapaziada da ocupação que havia me seguido até a delegacia. Com a prisão, fiquei carimbado entre os ocupantes como aliado. Sorriem: “Bora conhecer onde a gente mora. Você come caça?”. Era hora do almoço. Havia uma bicicleta para mim.

Chegamos ao baixão da Aparecida, bairro quente e pobre situado na área que será diretamente alagada pela construção de Belo Monte. Um tecnobrega no carro com alto-falantes no porta-malas; ouviremos isto por todo o almoço.

Corredores estreitos ladeados por pequenos quartinhos. A primeira porta do barraco está trancada com cadeado. “O rapaz daqui fugiu. Era ele e o irmão aí nesse quarto. O cara aumentou, não tiveram dinheiro pra pagar o aluguel e fugiram. A gente cobriu pro dono não pegar, a gente sabe onde eles estão, leva comida”, contam.

Subimos uma escada de ripa apodrecida. “O aluguel lá embaixo começou em 70 [reais] e tá em 200. Aqui em cima agora tá 250. Agora eu divido o quarto com ele”, aponta, com gracejo, para o melhor amigo. “Minha mulher sempre falou que era só o que faltava: eu mudar logo pra casa dele”.

Este é o contexto de 178 famílias – segundo o último levantamento do censo – que ocupam um terreno em desuso há mais de 30 anos na parte alta de Altamira. Estas famílias são parte de um universo de 6.500 famílias de bairros paupérrimos da cidade, conhecidos como baixões, que deverão ser alagados caso a usina seja construída.

Por caça, entenda-se catitu – ou porcão, ou porco-do-mato. Definitivamente, a melhor carne das redondezas, seguida pela de jabuti. Vão preparando o carvão e fazendo a vaquinha da cerveja. São bastante jovens, mas fanáticos por carimbó. Se auto-intitulam “Verequete”, em referência ao rei do carimbó.

Quando o local ia se esvaziando, um “verequete” surge disparando rojões como um aviso para que todos voltassem ao terreno.

Largam os barracos e rumam novamente à ocupação. E adormeceram lá, de um dia para o outro. Uma fileira extensa de redes com muitas cores e muita gente dentro.

Mais uma vez a polícia

Terceiro dia. Ressurge a polícia, novamente sem mandado, mas com um elemento surpresa: balas de borracha e bombas de gás. Despejam, desta vez, ao menos 350 ocupantes. Trinta e duas pessoas foram detidas e levadas à delegacia – entre elas, três menores de idade. Recolhem novamente todas as foices e facões. “A gente compra outros”, diz um dos manifestantes.

Mas a dor das pessoas não sai no jornal. A ação policial foi violenta, mas não apareceu na imprensa local. “Eles chegaram com tudo, apontando arma na nossa cara”, disse um dos despejados. “Aproveitaram a hora do almoço e o fato de não ter nenhum canal de televisão aqui naquela hora”. Enquanto colhíamos estes depoimentos, era possível ouvir o som de mais bombas e tiros na área interna do terreno. Não era permitido à imprensa entrar para acompanhar a ação da PM.

“Se este terreno é da Eletronorte, por que a empresa não vem aqui dizer onde é que a gente vai ficar?”, questionou I., moradora da Invasão dos Padres, bairro que será atingido por alagamento. “A empresa vai botar o povo debaixo d’água. Se ela tem coragem de mandar expulsar a gente, como não tem coragem de enfrentar o povo, de dizer que a gente vai ficar no fundo? Igual em Tucuruí. Minha casa está até hoje no fundo lá e eu nunca recebi um real”, gritava para a imprensa uma das sem-teto ocupantes. Sua mãe fora detida pela polícia.

Área em disputa

Apesar de ter sido identificada como de posse da Eletronorte pela polícia, a posse da área ocupada pelos sem-teto é disputada por empresários da cidade.

O diretor da rádio e TV Vale do Xingu, grupo ligado ao político Domingos Juvenil (PMDB-PA), Miguel Ceci foi à imprensa local (leia-se, o próprio canal) reivindicar a posse do terreno e pedir que a polícia tomasse providências quanto à desocupação. Ceci ameaçou ostensivamente os sem-teto e agrediu um cinegrafista local com um facão.

Outro elemento, identificado como Ubiratan e que se dizia “amigo do proprietário”, intimidava os ocupantes e a imprensa, e discursava para os presentes responsabilizando o Bispo da Prelazia do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário, Dom Erwin Krautler, como o causador dos problemas. “Vocês acham que uma pessoa de Deus teria sido ameaçado de morte? O Bispo é a besta-fera”, bradou para um grupo de homens que olhava a ocupação, próximo à sua caminhonete com placa de Macapá (AP).

No entanto, a versão oficial da posse da área veio com a polícia. O delegado garantiu aos moradores que o documento era legítimo, embora o papel que possuísse em mãos fosse apenas uma cópia gasta pelo tempo, o que não permitia uma análise apurada. Ainda mais se tratando de um documento baseado em coordenadas geográficas latitudinais e longitudinais. Não deu tempo de ligar o GPS.

*Jornalista do Movimento Xingu Vivo para Sempre

Las primeras víctimas de la hidroeléctrica de Belo Monte

Por Ruy Marques Sposati

Suben a uno de los puntos más altos de la ciudad. Llevan al hombro hoces, azadas y machetes. Y los niños en su regazo. El sol recorta el río Xingu, todavía helado.
Veinte de mayo, fue el principio de una ocupación urbana de familias sin hogar en Altamira (Pará). Yo estaba allí. Llegué un par de horas antes y así pude ver acercarse, desde arriba, a la gente, los perros, las conversaciones. Un poco de ruido matinal.
Esta fue la segunda ocupación en la ciudad en los últimos días. Las dos tienen relación con la construcción de la hidroeléctrica de Belo Monte. Treinta mil familias inundadas (y no hay señales de una indemnización). Dicen que en Tucuruí, en el proceso de construcción, hubo 37 ocupaciones, lo que significa que aquí sólo estamos empezando.
Las mujeres limpiaban y dividían los lotes: 20 por 10 metros. Los hombres limpiaban y dividían los lotes: 20 por 10 metros. Los niños no se divierten. Los incendios quemaron algunas serpientes. En el registro improvisados, 135 familias. En el terreno caben, más o menos, 200 familias, guardando el espacio necesario para calles, escuelas, clínicas de salud y centro comunitario.
Segundo día de ocupación. Llegaron más familias, llevaban consigo termos con un café flojo y con pasteles y guisos, y más niños.Detrás de ellos venía la policía. Con armas de fuego. Y detrás de ellos, los perros.
Un oficial muy serio iba con un título de propiedad en le mano. Decía: tierra propiedad de Eletronorte. Pensé que era la orden de desalojo. "Pero, oficial, ¿dónde está la orden para recuperar la propiedad?". Por esta pregunta fui llevado a la comisaría de policía y acusado de violación y de dirigir a los ocupantes. Mientras, las familias fueron desalojadas con porras y gas pimienta. La policía se llevó todas las herramientas.

Combatientes y cohetes
Dos horas más tarde, salía cabizbajo de la Policía cuando me topé con una tropa de bicicletas: eran los chicos de la ocupación que me habían seguido a la estación policial. Con la detención, quedé clasificado como un ‘aliado’ entre los ocupantes. Sonrieron: "Venga a ver dónde vivimos. Usted come caza? ".Era la hora del almuerzo. Había una bicicleta para mí.
Llegamos al baixão de Aparecida, el barrio caliente y pobre ubicado en la zona que será directamente inundada por la construcción de Belo Monte. Suena tecnobrega en un coche con altavoces en el maletero, y eso escuchamos durenta toda la comida.
Pasillos estrechos llena de pequeños cuartos. La primera puerta está cerrada con candado. "El chaval huyó. Vivían él y su hermano ahí, en ese cuarto. El tipo [dueño] subió los precios, no tenían dinero para pagar el alquiler y los dos huyeron. Nosotros los protegimos para que dueños no les pegara, sabemos donde están, les llevamos alimentos ", cuentan.
Subimos por una escalera de tablas de madera podrida. "La renta en la planta baja era de 70 reales [unos 40 dólares] y ahora ya está a 200 [120 dólares]. Aquí arriba ahora es de 250 reales. Así que comparto la habitación con él”, señala, con humo, mirando a su mejor amigo. "Mi mujer siempre decía que era lo que me faltaba: mudarme a vivir con él."
Este es el contexto de las 178 familias que -según el último censo- ocupan un sitio en desuso desde hace más de 30 años en la parte alta de Altamira. Estas familias son parte de un universo de 6.500 familias en las zonas de extrema pobreza de la ciudad, conocidas como baixões, que serán inundadas si se construye la represa.
Por caza, entiéndase el catitu (jabalí o cerdo de monte). Sin duda la mejor carne en la zona, seguida por la de tortuga. Van preparando el carbón y recogen la plata para la cerveza. Son bastante jóvenes, pero se declaran fanáticos del carimbó (baile del norte de Brasil de herencia afro). De hecho se autodenominan "Verequete", en referencia al rey del carimbó.
Cuando el lugar se iba vaciando, un "verequete" lanza cohetes como una advertencia para que todo el mundo vuelva a ocupar la tierra.
Abandonan los barracones y se dirigen de nuevo a la ocupación. Y duermen allí, de un día para otro. Una hilera de grandes hamacas con muchos colores y muchas personas en su interior.

Una vez más la policía
Tercer día. Vuelve a allanar la Policía, de nuevo lo hace sin una orden judicial, pero con el elemento sorpresa de las balas de goma, y los gases lacrimógenos. Dispersan, esta vez, a por menos 350 personas. Treinta y dos personas son detenidas y llevadas a la comisaría -entre ellos, tres menores de edad-. Se llevan otra vez todas las hoces y los machetes. "Nosotros compramos nuevos ", dice uno de los manifestantes.
El dolor de la gente no sale en los periódicos. La acción policial fue violenta, pero no aparece en la prensa local. "Llegaron con todo, apuntándonos con las pistolas en la cara ", dijo uno de los desalojados. "Se aprovecharon de que era la hora de la comida y del hecho de que no había ningún canal de televisión aquí en ese momento". Mientras recojo estas declaraciones, se podía oír el sonido de más bombas y tiroteos en la zona interior del terreno. No se permitió a la prensa seguir la acción de la policía.

"Si esta tierra es de Eletronorte, ¿por qué la empresa no ha venido aquí a decir dónde nos vamos a instalar?", se preguntaba I., una residente de la invasión de Los Padres, uno de los distritos afectados por las inundaciones. "La empresa nos quiere dejar bajo el agua. Si se atreve a mandar a la policía a expulsarnos ¿por qué  no tiene el coraje de enfrentar al pueblo, para decirnos que vamos a quedar en el fondo de la represa? Lo mismo pasó en Tucuruí. Mi casa está en el fondo y nunca recibí un real", le gritaba a la prensa uno de los ocupantes sin hogar. Su madre había sido detenido por la Policía.

Zona en disputa
A pesar de que la Policía aseguró que los terrenos eran de Eletronorte, la propiedad del área ocupada por las personas sin hogar es disputada por empresas de la ciudad.
El director de la radio y la televisión Vale do Xingú, un grupo ligado al político Domingo Juvenil (PMDB-PA), Michael Ceci, fue a los medios locales (léase, su propio canal) a reclamar la propiedad de la tierra y pedir a la policía que tomaras medidas a su favor después del desalojo. Ceci amenazó ostensiblemente a los sin techo y asaltó a un camarógrafo local con un machete.
Otro personaje, identificado como Ubiratan y que dijo ser "amigo del dueño" intimidaba a los ocupantes y a la prensa, y se dirigió a los presentes para culpar al obispo de la prelatura de Xingú y presidente del Consejo Indigenista Misionero, el obispo Erwin Krautler, como la causa de los problemas . "¿Cree usted que una persona de Dios habría sido amenazado de muerte? El Obispo es la bestia", rugió a un grupo de hombres que presenciaban la ocupación, al lado de su camioneta en la plaza de Macapá (AP).
Sin embargo, la versión oficial sobre la propiedad de la tierraera la que dio la policía. El comisario aseguró a los residentes que el documento era legítimo, aunque el papel que tenía en la mano era sólo una copia gastada por el tiempo, que no permiten un análisis detallado. Especialmente, si se trataba de un documento basado en las coordenadas de latitud y longitud. No había tiempo de encender el GPS.

*Periodista del Movimento Xingu Vivo para Sempre

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